sábado, fevereiro 20, 2010


Carnaval da escova progressiva e beijo sem pegada

 

Jolivaldo Freitas

 

Não vi lá grandes novidades neste carnaval que se vai - hoje ainda tem folia, o que mostra que o diabo é mais forte e já assoprou as cinzas para bem longe, que me perdoem os santos homens católicos. O rebolation é uma pegada de outras invenções rebolativas, desde os tempos de Xandy (ele ainda existe?) no século passado. Não teve novidade quando o caminhão de Pepeu Gomes lhe foi dado com som ruim, tanto que o engenheiro que ele trouxe do Rio disse que estava decepcionado, pois achava que o carnaval por aqui era organizado, mas que era amadorismo puro. Hahahaha! É Bahia meu irmão! Vá procurar sua turma.

 

Novidade, novidade, novidade mesmo foi Moraes Moreira se apresentando. As crianças não sabem quem é o moço. Os adolescentes nem tchum! Uma aborrescente me perguntou:

- Quem é esse tal de Moraes de Moreira?

 

Passei a falar dos seus méritos e ela disse que eu parecia o seu professor de História falando. É isso mesmo. Moraes virou página da nossa história, como se já tivesse morrido e estando junto de Dodô e Osmar por culpa dos grupos que dominam o carnaval de Salvador, que cercam ou criam cabeças de pontes nas emissoras de rádio e não deixam nem falar naqueles que geraram tudo o que hoje se transformou em comércio.

 

Falar em comércio, negócio bom esse de ter uma loja para vender chapinha e produtos para escova progressiva na Bahia. Não vi muita nega do cabelo duro nos circuitos. Era tudo índio ou europeia.  Cada cabelo mais liso que pelo de pantera. Nada de afro ou black power, a não ser quando passava um bloco de resistência, como o Ilê aiyê. Na pipoca e nos blocos dos barões, tome chapinha e escova progressiva.

 

E o que foi novidade no carnaval passado este ano ficou a dever. A moda de beijar, beijar, beijar, de língua, de leve, de roçar, com bafo de cerveja, fedendo a suor, com mau-hálito, dentadura postiça ou dente cariado continuou. Mas, pelo jeito já não tem tanta graça assim. A maioria que vi beijando beijava de olhos abertos, olhando o movimento, a boca mole e nem mesmo pegava com vontade a moça. Tinha uns caras que nem os braços mexiam. Melhor não beijar.

 

E era tanta mulher na rua como nunca se viu. E as mulheres se queixando que os homens – talvez pela demanda exagerada – não estão chegando junto. Uma amiga que saiu com a filha de 19 anos se queixou, enquanto pegava em meu braço para tirar onda e fingir que não passou em branco. Ela veio subindo a ladeira me questionando:

- Meu amigo, me diga... nos meus 39 anos estou em cima?

- Está,  até demais.

- Os 150 paus que gasto em academia por mês não me deixa boa?

-Boa.

- Tenho peitão e coxões?

- Tem.

- Nem botox preciso usar.

- Não.

- E minha filha não é linda?

- Ô!

- Como é que a gente vai e volta com a boca virgem?

 

Então quebrei o galho das duas. Iam descendo Marcelo Pocotó e Toinho Medrado, velhos amigos. Chamei num canto e pedi encarecidamente que dessem uns chupões nas duas. Eles toparam, mas elas recusaram dizendo que eles estavam bêbados e com desodorante vencido. Perdi a paciência e retruquei:

- Pó! Vocês também são muito exigentes - E não deixei mais que pegassem em meu braço. Mal agradecidas.

 

 

 

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1 Comments:

At 12:21 PM, Blogger cloves_cerqueira said...

Deveriam existir 2 carnavais.
Um para os atuais donos, em local fechado, privê, cheios de paulista imbecis metidos a besta que pagam uma nota preta pra ver um careca de bandana fingir que toca guitarra e outro para o povo da terra, como acontecia nas decadas de 70 e 80.
Está na hora de se mudar esta situação. Joli, utilize seu poder de comunicação para mudar este estado de coisas.
Cloves Cerqueira

 

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