quinta-feira, fevereiro 08, 2007


FINGINDO SER INTELIGENTE

oi assim: a mulher encostou no meu lado do balcão no Mercado Modelo e perguntou se eu era baiano e eu disse que sim. Passou então elogiar a fluidez dos movimentos dos capoeiristas; uns caras sarados e suados. Me disse, sem eu perguntar, que sentia falta de um bom diálogo (como se ela quisesse mesmo conversa mole, naquela hora do vuco-vuco), falar de coisas diferentes de Olodum, Axé, Pelourinho, acarajé, reggae, moqueca e aquele dia em que pegaram dois caras branquelas lá da Barra que estavam zoando no ensaio do Ilê Ayiê e quebraram no pau. Expliquei que ela estava errada, que embora a capoeira fosse uma arte essencialmente das camadas populares e dos negros, conhecia muitos capoeiristas, ali mesmo no Mercado Modelo ou do Restaurante Solar do Unhão, que estudavam em faculdades e pagavam a mensalidade jogando capoeira ou que tinham se formado mas ganhavam muito mais dinheiro se apresentando para turistas. Sem falar que de vez em quando arrumavam uma gringa que dava boa vida. Ela fez ouvido-de-mercador. Não sei o que aquela branquela filha da USP com doutorado nos States viu em mim e veio puxar conversa - o que já gerou duas espécies de mal-estar naquele habitat de ostras, dobradinha, caipirosca e batidas: a primeira com os capoeiristas olhando com ódio, pois todos estavam a fim, de papar a loiraça belzebu; e em seguida as brincadeiras sem graça que os cachaceiros ao lado não paravam de fazer por causa da coxona que a mulher exibia sob o manto fino de uma saia indiana que deixava transparecer a silhueta na contra-luz que vinha da rua.
O diabo da mulher me elegera, dentre milhares de turistas de tudo que é lado que veio, pois turista e formiga taco-taco a gente não sabe qual a origem, a não ser depois de arrancar um naco da gente, bêbados, gigolôs e comerciantes.
Então aproveitei e estou eu dando atenção para aquela moça desinibida e ela primeiro me pergunta o que estava comendo e eu disse que era papafumo e passei a explicar o que era papafumo, como as mulheres da Ribeira, Bonfim, Tainheiros e do outro lado da Ilha de Itaparica faziam para catar, acocoradas e com grandes colheres de alumínio ou pazinhas, riscando a praia; até dei dica como se cozinha, falei dos temperos e do cozimento; informei como é bom comer, com uma pouco de pimenta de cheiro. Na minha verborréia expliquei que é melhor que degustar com pimenta malagueta, pois esta arde muito e para encarar somente sendo iniciado e por aí vai. Pensei que a mulher ia tomar umas biritas, provar uns quitutes e se picar. Foi quando percebi que ela não estava se importando nem com minha careca, nem a barriga mais que saliente, nem os dentes falsos e muito menos meu sovaco cheirando a leite azedo. Acho que ela estava cansada de levar surra de... da negrada e agora pensava que iria conseguir um papo cabeça - e bem que minha mãe diz que fico parecendo intelectual quando uso óculos.
Vislumbrei a oportunidade de mandar ver em cima da professora paulistana e, quem sabe, por causa dos vapores das batidas e pela essência afrodisíaca dos mexilhões e do caldo de sururu fiquei interessado. Foi quando ela, achando que eu era culto e inteligente, já que passei a dissertar sobre autores baianos que ela admira, como Jorge Amado, Antonio Torres, João Ubaldo, Ruy Espinheira, Elieser César e Ayeska Paulafreitas, dentre outros, elevou o nível da conversa e deu para explicar a miscigenação brasileira sob o ângulo de visão de Roberto da Matta. Eu que nunca li nada do homem ouvindo quieto e de vez em quando balançando a cabeça, como se tudo estivesse entendendo e harmonizando.
Depois ela passou a falar do negro baiano na ótica de Pierre Verger e aí fiz um trocadilho, para mostrar que era engraçadinha, dizendo que Verger era bom de ótica e de zoom. Vixe!
E o papo ia segundo, o Mercado Modelo já fechando suas portas eu doido para deixar aquelas carnes brancas toda roxa e a mulher me sai com uma tese de que o baiano é cordial por causa do vai-e-vem das ondas do mar de Itapuã, coisa da experimentação intelectual de Claude Lévi-Strauss, que achava ser bastante plausível, e foi quando ela me perguntou se eu conhecia sua obra e eu com toda empáfia disse que sim. Culhuda!
Quanto às ladeiras de Salvador, me perguntou se o arquiteto português Luis Dias, trazido que foi por Tomé de Souza em 1549 para criar a cidade e edificar as colinas não seria uma espécie de Niemayer da época, já que suas obras eram qualificadas pelo uso de torreões cilíndricos, que foram aplicados em sistemas defensivos em todas as cidades de fronteiras portuguesas, por volta dessa época, baseados em polígonos regulares e com baluartes, com um novo conceito de urbanismo, optando pela simetria ou formas geométricas perpendiculares e retas, introduzindo conceitos de regularidade.
Respirei fundo. Fui percebendo que, pelo fato de somente abanar a cabeça, esperando que a mulher se embebedasse e fôssemos para um brega (“coisa mais típica e folclórica, feito por todos os baianos da gema”, pretendia argumentar para ela, a fim de justificar a premência da escolha de um local alí perto), já estava gerando uma certa desconfiança. Até que ela deu uma gude-presa, golpe fatal, tiro-de-misericórdia:
- Você fez qual faculdade?
Menti dizendo que Universidade Federal da Bahia.
- Se formou em quê?
Menti de novo dizendo que em Filosofia. Ela nem esperou e disparou a pergunta miseravona:
- Qual a parte da obra de Friedrich Nietzsche que você mais gosta: “Assim Falava Zaratustra” ou “Humano, Demasiado Humano”?
Ah! Foi então que me retei de vez e respondi de chôfre, num baianês claro e legítimo:
- E aí, minha nêga! Pode ser ou tá difícil?

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1 Comments:

At 12:58 PM, Anonymous Carminha said...

JOli meu amigo, como estás? porque não fazes aqui um pequenino diário heim? Ía ser bom ver Sampa sob a tua ótica ... O Blogger mudou ... Vc precisa de uma conta no Google. Vou ver se consigo uma pra ti e te falo.
Escreva mais. Tô adorando! Beijos e fique bem.

 

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